Um singelo espaço de reflexão pessoal. Lugar de afectos, espiritualidade e outras coisas da vida.

14
Out 04

 

 Claustro Convento de Cristo
 
Corria o ano de 1956. A vida nas aldeias era dura. Tempos difíceis para famílias numerosas.
Os trabalhos agrícolas e as jeiras “na floresta” eram a única saída para os jovens que completavam a 4ª. Classe. Mesmo daqueles cujas famílias tinham posses, poucos eram os que iam estudar.
Neste Outubro missionário, vou recordar a minha história: Filho mais velho duma família de sete irmãos, jovem pacato, tímido e inteligente que gostava de saber e aprender.
Quis Deus, por intermédio do saudoso Padre Silva, o então jovem pároco da nossa aldeia, que entrasse para o Seminário.
Desses tempos, ainda hoje, conservo na memória a experiência da viagem para o Porto que conjuntamente com o meu pai efectuei durante toda a noite, à boleia, no camião que o falecido Gil regularmente conduzia carregado de madeira; a paragem nos postos de controlo que a GNR tinha ao longo do percurso; o choque que a vida da cidade me provocou; o frio que tive na Estação de S. Bento totalmente deserta às 6 horas da manhã; a imponência da sua construção, a magia dos comboios e a novidade da sua estreia.
Aí, à hora aprazada, lá estava um padre missionário, de capa e batina, a quem fui entregue conjuntamente com outras crianças.
Foi um momento difícil a hora da separação. Contudo, a incerteza e atracção do desconhecido, o fervilhar da grande cidade, a marcha galopante do comboio, o vislumbrar do mar lá ao longe, o receio de perder os poucos haveres, as apressadas mudanças de comboio, depressa fizeram com que as lágrimas secassem e o grupo, recém-formado, se sentisse unido e seguro.
Chegados ao Seminário instalado no Convento Cristo, em Tomar, centenas de jovens, já aí se encontravam.
Foi a descoberta da nova casa, a balbúrdia dos primeiros tempos, o toque da sineta, o aprender do “caminho” da camarata, da capela, da sala de aulas, do refeitório, do campo de futebol.
Era o começo duma nova etapa. O deslumbramento dos rituais. A descoberta do caminho iniciado. O sonho de ser missionário nos sertões africanos.
Não quis Deus, porém, que tal se concretizasse. Contudo, ainda hoje guardo saudades desses tempos que, tão importantes foram para o desenvolvimento da minha personalidade, da minha maneira de ser e de estar hoje na vida.
Neste mês de Outubro, mês em que se assinala o Dia Missionário Mundial, ao partilhar o meu sonho e emoções, é com o intuito de acicatar os jovens, desassossegar-lhes a consciência e dizer-lhes que, num mundo cada vez mais carregado com as tintas do “carreirismo”, mundo de aparências, mundo em que pontificam o hedonismo e a ambição da fortuna, se algum dia ouvirem a Palavra de Jesus “vem e segue-Me”, não tenham medo de enfrentar o desconhecido, de arriscar a vida ao serviço de Deus e dos irmãos.
Não é loucura segui-Lo, loucura é ignorá-Lo.
 
publicado por aosabordapena às 16:22

10
Out 04

 

 

 

 

Depois da elucidativa exposição da …., apraz-me trazer à vossa presença as seguintes considerações:

Se o Estado apoia todos os cidadãos com as mais variadas prestações, pese embora o seu baixo quantitativo, (recordo que a mais baixa pensão ou subsídio da segurança social se cifra em 154,88 euros- pensão social), 31.051$00 na moeda antiga,

Se há tantas instituições envolvidas na luta contra a pobreza e que proporcionam meios materiais e de acolhimento, qual o campo de acção onde os vicentinos devem exercer a sua acção?

Esta é uma questão crucial que importa reflectir e que coloca algumas inquietações aos vicentinos.

Recordemos os princípios fundamentais da Sociedade:

- Procurar aliviar aqueles que sofrem, em espírito de justiça e de caridade e por um compromisso pessoal.

- Na fidelidade aos seus fundadores, a Sociedade tem a preocupação constante de se renovar e de se adaptar às condições mutáveis do mundo.

- Nenhuma obra de caridade deve ser estranha à Sociedade.

- Procurar aliviar a miséria, descobrir e solucionar as suas causas.

Atentas estas premissas, qual será então o campo de acção que sobra para os vicentinos? Qual será o campo de acção que ninguém quer, que não tem qualquer cobertura ou que tem uma cobertura insuficiente?

Será legítimo que os vicentinos atendam pobres já subsidiados pelo Estado ou por outras instituições?

Por certo, cada um dos presentes terá a sua resposta a estas duas questões e qualquer que ela seja, talvez não seja pacífica ou consensual.

Segundo os últimos números divulgados pelo relatório Estado das Cidades da agência Habitat da ONU e que vieram a lume no passado mês de Setembro, 2 em cada 10 portugueses estão “em risco de pobreza” estimando-se em 2 milhões os portugueses que vivem no limiar da pobreza tendo um rendimento médio (sublinho rendimento médio, uma vez que as médias servem para amenizar as realidades existentes), de 280 euros/ 56 contos/mês, sendo Portugal o País da União Europeia onde há um maior nível de desigualdade social.

O perfil dos sem-abrigo mudou. Á figura tradicional do pedinte vagueando pelas ruas, do alcoólico atirado para o banco do jardim, juntam-se agora jovens sobretudo homens, desempregados ou incapazes de acompanhar o ritmo social, com problemas de droga ou com sida e mulheres e crianças vítimas de violência social.

Este facto sugere o falhanço dos sistemas tradicionais de apoio social.

Tal leva à violência e à criminalidade sendo cada vez maior o número de crimes cometidos por jovens.

Escrevem os autores do citado relatório “ que os filhos da pobreza estão a tornar-se criminosos em idades muito precoces”.

Então qual será o papel dos vicentinos nos dias de hoje que são os nossos?

O Estado e as instituições podem e devem contribuir para minorar as carências materiais dos cidadãos. O vicentino deve continuar a ajudar, materialmente, aqueles que recebem as prestações mínimas; em situações de solidão e de sofrimento deve, pela manifestação de afecto, de respeito pela dignidade individual, oferecer amor, compreensão, saber ouvir, aconselhar com uma palavra amiga.

O vicentino deve procurar exercer a sua acção sobretudo junto dos mais idosos, porque mais frágeis e abandonados.

A acção dos vicentinos deve mobilizar e desassossegar as consciências, expor situações de carência e exercer pressão para a sua resolução atempada, lutar para que haja mais justiça social.

O Estado não conhece a pessoa que auxilia, mas sim o seu número de inscrição.

O vicentino deve ver na pessoa do pobre o Cristo marginalizado pela sociedade do seu tempo.

O Estado é lento e burocrático. O vicentino deve estar sempre disponível e não esperar pelo dia seguinte para ajudar quem precisa.

Se nenhuma obra de caridade deve ser estranha à SSVP;

Se a SSVP deve ter a preocupação de se adaptar às condições mutáveis do mundo;

Se as nossas estruturas são frágeis ou inexistentes porque não, para além da nossa acção específica como vicentinos exercida no silêncio e na discrição do dia a dia, a constituição de parcerias com outras entidades ou com o próprio Estado onde tal seja possível e adequado? Porque não reivindicar para a SSVP dada a sua abrangência mundial e nacional um estatuto, digamos assim de uma espécie de parceiro social que pudesse propor ou influenciar políticas sociais?

Há em Portugal segundo os últimos números publicados cerca de um milhão de analfabetos e outros tantos ou mais que sabendo ler e escrever, não percebem o que lêem, não sabem preencher um documento oficial.

O vicentino deve também trilhar o caminho no combate à falta de instrução.

Porque não um serviço de consultadoria a nível local e a nível nacional? Uma espécie de Loja da Caridade em contraponto à Loja do Cidadão?

Poderão as afirmações e sugestões apresentadas ser utópicas ou desprovidas de sentido. Elas têm como único intuito provocar a reflexão no sentido de despertar consciências e procurar todos os caminhos possíveis para que a fome e a miséria sejam derrotadas pois “a questão social” do tempo de Ozanam continua em aberto.

Vou terminar, recordando as suas palavras: “a questão que divide os homens dos nossos dias já não é uma questão política mas uma questão social. Há muitos homens que têm demais e querem sempre mais: e há muitos mais que não têm o suficiente, que nada têm e que querem agarrar, se não lhes derem. Entre estas duas classes de homens prepara-se uma luta terrível: dum lado o poder do ouro, do outro o poder do desespero”.

Como têm actualidade estas palavras proferidas por Ozanam em Novembro de 1836.

 

 

 

publicado por aosabordapena às 15:35

Outubro 2004
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
as minhas fotos
As minhas visitas
counter customizable Exibir My Stats
mais sobre mim
pesquisar