Um singelo espaço de reflexão pessoal. Lugar de afectos, espiritualidade e outras coisas da vida.

27
Set 03

 

 

 Comemorou-se no passado dia 28 de Agosto a festa do Martírio de S. João Baptista.

No meu silêncio, arrepio-me pela atrocidade e malvadez daquele rei sanguinário que o mandou decapitar, pelo simples facto de ter ousado dizer a verdade que lhe era incómoda.

S. João Baptista, homem corajoso, não se vergou perante os poderosos da terra.

Santificado e purificado no seio de sua mãe Santa Isabel pela presença de Jesus e Maria, aquando do seu encontro em Ein Karem, fortalecido por uma vida de jejum e oração, S. João Baptista é um exemplo de fortaleza e desprendimento, um poderoso intercessor em favor de todos os que sofrem perseguição, qualquer que seja a sua causa.

E no meu silêncio recordo a Igreja que sofre e é amordaçada no direito de livremente se poder exprimir e de Vos louvar, Senhor.

Nigéria, Sudão, China, Cuba, Bielorússia, Roménia, Rússia, Colômbia, Venezuela, Coreia do Norte, são países onde, actualmente, se verificam as situações mais críticas.

No meu silêncio, Senhor, curvo-me perante a coragem de todos aqueles que ao longo de 2002 sofreram por causa da fé: 100 345 cristãos foram presos, 938 morreram e 629 foram feridos.

Curvo-me perante as cruzes ignoradas e não contabilizadas de tantos cristãos que, penosamente, mas com coragem, as suportam pelo Vosso amor, no silêncio dos dias e das noites sem fim.

O Calvário repete-se diariamente, Senhor, em directo ou ao vivo e os gritos amordaçados dos que têm fome, dos doentes, dos desempregados e explorados, ecoam e ferem os nossos ouvidos.

E a Vossa pergunta angustiada “porque Me persegues?”, continua a não encontrar resposta no coração do homem.

Porquê, Senhor, e até quando?

 


08
Dez 02

 

 

É no silêncio do teu olhar, que pressinto o que a boca não diz e o coração oculta.

O teu gesto contido esconde um laivo de tristeza e de amargura, uma solidão resignada, um grito de alma abafado.

“A vida é uma farsa e o mundo cruel”, são convicções que te possuem, que te levam ao desespero, ao desânimo.

No teatro da vida, contemplas o desfile da mentira e da injustiça, da fome e da guerra, da opulência e da indiferença.

E sentes-te vazio. Um zero camuflado de revolta interior. Nas mãos, um pouco de nada.

Contudo, ao canto do olho, onde uma lágrima espreita, vislumbro um querer diminuído, mas não derrotado.

- Não percas a confiança, procuro balbuciar. Há irmãos nossos, sofrendo muito mais, e que não desistem. A sua fé ajuda-os a ultrapassar as dificuldades da vida. Lembra-te que Deus, nosso Pai, tudo providencia.

Não foi Ele que disse: “Qual é de vocês que, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco da sua vida? Não estejam preocupados nem inquietos com o que hão-de comer e beber. Tudo isso procuram os que só pensam neste mundo, mas vocês têm um Pai que sabe muito bem do que precisam. Procurem primeiro o Reino de Deus que tudo isso vos será dado”. (Lc 12, 25, 29 a 31)

Calaram-se as palavras. E no meu e teu silêncio, a Palavra de Deus encontrou guarida, e um suave bálsamo aliviou a tua e minha angústia.

 


09
Set 02

 

Amanheceu cinzento o dia 9 de Setembro, facto de que, em regra, não desgosto.

Contudo, hoje, a minha alma encontra-se envolta num manto de pesar. Acabo de me despedir do Júlio, na Igreja da Misericórdia. A sua breve passagem pela pátria terrena, 54 anos, torna a situação mais dolorosa e deixa-me perplexo.

No sótão das minhas recordações, revejo outros companheiros de trabalho que, precocemente, o Senhor quis agregar ao Reino da Luz.

Senhor, os Vossos desígnios a nosso respeito são insondáveis!

Neste turbilhão de pensamentos em que rodopio, o meu coração eleva-se até Vós, Senhor, centro de gravidade da nossa vida, nosso destino final.

E sinto uma vontade imensa de “mergulhar as mãos no barro da vida e daí desentranhar o Reino de Jesus, e depois erguê-las ao Céu”, para que um dia antes possa dizer «bem fiz eu», do que «se eu soubera», teria procedido doutra forma.

Senhor da História, nas tuas mãos, está a chave da vida e da morte.

O Júlio acabou o seu combate. Resta-lhe o silêncio e a paz. Para nós, que sentidamente lamentamos a sua partida, o gongo continua a soar, chamando-nos ao próximo combate. Até quando?

Levanto-me. Um último olhar.

No meu silêncio, tudo é silêncio e ausência. Onde estais, Senhor?

Na escuridão da minha fé, sinto frio, tudo me amedronta.

A luz da minha lâmpada, apesar de bruxuleante, procura seguir os Vossos passos. Cobre-me, Senhor, com a Tua Presença. “Tu és o meu Lar e a minha Pátria. Em Ti quero repousar, no final do combate”.

 

 

 


16
Jun 02

 

Amanheceu calmosa, a manhã deste dia de fins de Junho de 2002.

Ao longe, nuvens prenunciadoras de trovoada, encobrem os céus que a canícula torna opacas.

Uma paz a resvalar para uma inquietante e aparente acalmia, envolve-me, e, em vez de sossego, tranquilidade, sinto um perturbador stress que desgasta e me torna apático.

Ao pensamento, custa abstrair-se dessa materialidade que me absorve e consome.

Paulatinamente, o meu pensamento foge para Vós, Senhor. Onde estais? Que fazer a esta minha ansiedade?

O silêncio é total.

Na minha memória, ecoam as palavras de Santo Agostinho: “O Senhor fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e aí O encontremos”.

Deixo, por um momento, as minhas preocupações, e entro, por um instante em mim próprio, afastando-me do tumulto dos meus pensamentos confusos e procuro-O no meu silêncio e isolamento.

Eu sei que Ele está em toda a parte. Parecendo ausente, mas sempre presente. Escondido e esquecido no Sacrário daquela aldeia encravada na serra, tudo providenciando para que ao homem nada falte.

Esta certeza reconforta-me. O meu coração continua a bater, mas é um bater diferente.

Estou simplesmente diante de Ti, Senhor.


18
Mai 02

(Estrela indicando o local do nascimento de Jesus na Gruta da Natividade)

 

Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, sois o nosso refúgio, sempre acolhedor e carinhoso, em todas as horas e circunstâncias.

Vós “cuidais, com amor materno, dos irmãos de Vosso Filho que entre perigos e angústias caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, Vos invocamos com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira”. (Lg 62)

Por isso, neste mês de Maio, elevamos as nossas preces até Vós, Senhora, e Vos louvamos e, até ao fim dos tempos “todas as gerações Vos hão-de proclamar ditosa”. (Lc 1, 48)

Senhora da Paz, Senhora de Belém, há filhos Teus que, neste momento, estão a sofrer na Terra Santa que Vossos pés incansáveis pisaram.

Aquela gruta, que vos serviu de abrigo e na qual Jesus, o Príncipe da Paz, a Esperança da Humanidade, nasceu, está cercada.

A vossa estátua, marcada pelas balas, é o sinal visível duma violência gratuita e infindável.

A quietude de há 2000 anos deu lugar ao roncar dos tanques, ao deflagrar de bombas, ao detonar de granadas, a tiroteios mortíferos, que semeiam a morte e a destruição.

A música angelical de então é, hoje, o choro inconsolável de viúvas, órfãos e de inocentes que sofrem, amarguradamente.

Os humildes e pacíficos pastores, são hoje, homens em cujo coração empedernido, reina o ódio e a intolerância.

É por todos eles, Senhora, e por todos aqueles que, em qualquer outra parte do mundo, se digladiam, que Vos pedimos.

Senhora, Vós que nas bodas de Caná, movida de compaixão, intercedestes junto de Vosso Filho, para que não faltasse o vinho, vimos hoje, a Vossos pés, suplicar que ilumineis os corações de todos os homens, no sentido da paz e da concórdia.

 

publicado por aosabordapena às 14:45

08
Mai 02

 

 

É o findar da tarde. Em breve, esta penumbra que me envolve cede o lugar à escuridão nocturna.

O frenesim dum dia de trabalho chega ao fim. Para trás, ficam o retinir do telefone, o buzinar dos automóveis, as conversas gritadas, o som estridente do telemóvel.

O silêncio ganha espaço. É preciso ouvi-lo, porque no nosso dia a dia, são cada vez mais raros, os momentos de serenidade e de quietude.

No silêncio, escuto Deus e o Seu silêncio.

Silêncio desconcertante, nesta óptica humana que me impede de ver mais longe, face às catástrofes que assolam a humanidade, às doenças incuráveis que nos perseguem, aos ataques terroristas que nos matam, à fome, à guerra, à morte de tantas crianças inocentes.

“Os meus inimigos insultam-me e a toda a hora me perguntam: “Onde está o teu Deus?” (salmo 42)

Posso não ter resposta imediata ou adequada. Contudo, eu sei que o meu Deus, Deus que cala, que não felicita nem reprova, é meu protector e salvador. Nele coloco toda a minha confiança.

Como o salmista, digo também: “porque hei-de estar desanimado e preocupado?”

Calam-se as palavras. Ajoelhado na noite da minha fé, acredito e “suspiro por Ti, meu Deus”.

E, neste silêncio tranquilizador que me invade, tenho a sensação de vislumbrar a Tua face Senhor.

 

publicado por aosabordapena às 16:18

08
Abr 02

 

 

Fim de tarde dum dia primaveril. Diante dos meus olhos, estende-se a imensidão do mar, cortada de onde em onde, por minúsculos barcos, vogando ao longe, na crista das ondas.

O marulhar das águas batendo nas rochas, quebra a quietude que me rodeia.

O cheiro intenso da maresia invade-me os sentidos e o pensamento voa até Vós, Senhor dos ventos, Senhor dos mares, da bonança e da tempestade.

E imagino-me nas praias do mar da Galileia, onde Vos encontro, prestes a embarcar “para a outra banda do lago”, depois de um dia de intensa actividade, de muitos quilómetros percorridos a anunciar o Reino de Deus.

A multidão que Vos segue embevecida, acena-Vos da praia, enquanto o barco lentamente se faz ao largo.

Jesus, extenuado, retribui. A multidão dispersa. É hora de regressar a casa.

Consigo, levam palavras de vida eterna, a alegria estampada nos rostos, corações a transbordar da graça divina e um desejo intenso de novamente O encontrar e seguir.

No meu silêncio, eu escuto os seus comentários e deixo-me contagiar pela sua alegria.

Como os discípulos de Emaús, sinto que o coração arde no peito e ouso pedir-Vos: “Fica comigo, Senhor, porque já se está a fazer tarde, já é quase noite”.

 


16
Mar 02

 

 

Acabo de ouvir as notícias da noite. A guerra continua no Médio Oriente. A fome grassa no Afeganistão. O frio gela a Europa e faz vítimas mortais.

No meu ouvido, ecoam, longínquos, mas audíveis, gritos de dor e de raiva, gemidos sofridos, choros lancinantes.

É um silêncio perturbador.

A insensibilidade ou inoperância dos homens é confrangedora. A sua impotência face às forças da Natureza é total.

Neste mar de sofrimento, vejo irmãos nossos erguendo os olhos ao céu à espera dum milagre, outros perscrutam o horizonte à espera do auxílio que tarda, outros choram amargamente os entes desaparecidos.

Os seus rostos transfiguram-se, e no meu silêncio, entrevejo o rosto do Senhor. Rosto desfigurado pela noite de vigília e de oração no Monte das Oliveiras. Noite de insónia, agravada pela ausência e fuga dos amigos.

Rosto desfigurado pelos açoites e pelos espinhos cravados no seu Santo Corpo.

Rosto desfigurado pela prepotência do poder instalado, pela traição de Judas e a negação de Pedro.

Apesar de tudo, Senhor, consigo ainda vislumbrar no canto dos olhos desses irmãos, uma réstia de esperança que uma lágrima furtiva, teima em enevoar.

No silêncio … eu continuo a escutar e, como Santo Agostinho, continuo a pedir-Te:

“Dá-me força de perguntar por Ti,

Pois Te deixaste encontrar

E me infundiste esperança

De sempre mais Te encontrar”.

 

 

publicado por aosabordapena às 16:42

18
Jan 00

 

 

É este mês de Janeiro consagrado a Santa Maria Mãe de Deus e da liturgia podemos extrair, para reflexão, alguns acontecimentos que evidenciam as virtudes daquela que “achou graça diante de Deus”.

Maria, submissa à vontade de Deus, admirada com tudo o que diziam de seu recém-nascido Filho, anfitriã de pastores e de reis magos. Maria aconchegando o Menino na manjedoura da gruta de Belém que “conserva todas estas coisas, ponderando-as no seu coração”. Maria, humilde e pobre, sem lugar na hospedaria e que “oferece em sacrifício ao Senhor um par de rolas ou duas pombinhas”, Maria, mãe receosa pelo que possa acontecer a seu divino Filho e que foge, pressurosa, para o Egipto, protegendo a sua vida, da raiva assassina de Herodes.

Exemplos maravilhosos de conduta que a Mãe de Deus e nossa mãe nos proporciona:

- Vida de obediência à Lei de Deus e de aceitação da condição humana, na riqueza ou na pobreza, na dor ou na alegria, na doença e na saúde.

- Vida, vivida solidariamente, sem discriminação de pessoas, pois todos “já não somos servos mas filhos de Deus”.

- Vida, vivida em comunhão íntima com Deus. Com Deus na boca, mas sobretudo no coração.

- Vida, testemunho da primeira das bem-aventuranças, em que o espírito de pobreza está antes de tudo; espírito de partilha com os mais desfavorecidos e repúdio pela ostentação e mau uso da riqueza.

- Vida, testemunho de fé que, para sua defesa e afirmação, não hesita em suportar sacrifícios, contrariedades, desilusões e mal entendidos.

Façamos como Maria. Ponderemos todas estas coisas no nosso coração e peçamos-lhe a coragem necessária para as implementarmos na nossa vida.

 

 


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