Um singelo espaço de reflexão pessoal. Lugar de afectos, espiritualidade e outras coisas da vida.

16
Mai 08

 

 

Morava numa das ruas centrais da cidade. O seu palácio era majestoso, resguardado dos olhares curiosos por uma alta sebe coberta por odoríferas gipsofilas. As palmeiras elevavam-se altaneiras em direcção ao céu azul.

O portão principal resguardava o seu proprietário «homem rico que se vestia de púrpura e linho fino» (Lc 16, 19) de qualquer veleidade por parte de intrusos, de pobres, de escravos fugidos e de outros sem eira nem beira que enxameavam as ruas da cidade procurando algo para comer.

Paro e o meu olhar vislumbra «um pobre, chamado Lázaro, (que) jazia ao seu portão, coberto de chagas». (Lc 16, 20). Em vez de enfermeiros «eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas». (Lc 16, 21)

E no meu silêncio, escuto a música inebriante e as vozes alegres e estridentes dos convivas que se refastelavam com as iguarias que o homem rico lhes proporcionava.

E pressinto a angústia do pobre Lázaro. O seu desejo de «saciar-se com o que caía da mesa do rico» (Lc 16, 21) era evidente. Porém, mesmo isso era-lhe negado, pois tal era um privilégio dos cães do rico.

E no meu silêncio, ouço a voz de 960 milhões de pobres Lázaros contemporâneos, que segundo o último relatório das Nações Unidas, vivem com menos de 1 euro por dia. Homens e mulheres que vivem em condições sociais desumanas, sem comida, sem abrigo, vivendo uma vida abaixo de cão de rico.

E escuto os seus gritos de dor, esperando ansiosos na margem do caminho das nossas sociedades perdulárias a ajuda que tarda ou que já chegará fora de tempo.

E no silêncio … eu sinto que esta parábola de Jesus é um desafio à nossa consciência adormecida; um soco no nosso estômago bem nutrido; o indicar dum caminho certo e recto em direcção a Deus, ou seja, o amor e a ajuda fraternos, em prol, especialmente, daqueles que mais precisam.

P.S. “ Se hoje ouvires a voz do Senhor” e sentires o Seu apelo no sentido da partilha de bens, podes fazê-lo de várias formas: escolher e contribuir para a organização humanitária em quem mais confies; contribuir para a Conferência Vicentina Masculina de S. João Baptista ou para a Conferência Vicentina Feminina de Nossa Senhora de Fátima, ambas da Paróquia da Sé.

A opção é tua. A recompensa é do Senhor.

 

publicado por aosabordapena às 16:26

16
Mar 02

 

 

Acabo de ouvir as notícias da noite. A guerra continua no Médio Oriente. A fome grassa no Afeganistão. O frio gela a Europa e faz vítimas mortais.

No meu ouvido, ecoam, longínquos, mas audíveis, gritos de dor e de raiva, gemidos sofridos, choros lancinantes.

É um silêncio perturbador.

A insensibilidade ou inoperância dos homens é confrangedora. A sua impotência face às forças da Natureza é total.

Neste mar de sofrimento, vejo irmãos nossos erguendo os olhos ao céu à espera dum milagre, outros perscrutam o horizonte à espera do auxílio que tarda, outros choram amargamente os entes desaparecidos.

Os seus rostos transfiguram-se, e no meu silêncio, entrevejo o rosto do Senhor. Rosto desfigurado pela noite de vigília e de oração no Monte das Oliveiras. Noite de insónia, agravada pela ausência e fuga dos amigos.

Rosto desfigurado pelos açoites e pelos espinhos cravados no seu Santo Corpo.

Rosto desfigurado pela prepotência do poder instalado, pela traição de Judas e a negação de Pedro.

Apesar de tudo, Senhor, consigo ainda vislumbrar no canto dos olhos desses irmãos, uma réstia de esperança que uma lágrima furtiva, teima em enevoar.

No silêncio … eu continuo a escutar e, como Santo Agostinho, continuo a pedir-Te:

“Dá-me força de perguntar por Ti,

Pois Te deixaste encontrar

E me infundiste esperança

De sempre mais Te encontrar”.

 

 

publicado por aosabordapena às 16:42

01
Mar 00

 

 

Está a decorrer o tempo da Quaresma, período durante o qual a liturgia da Igreja faz apelo à conversão e ao arrependimento.

“Cingi-vos, sacerdotes, e chorai. Lamentai-vos, ministros do altar! Ordenai um jejum. O dia do Senhor está perto!” (Jl 1, 13-15)

Esta caminhada, iniciada com a imposição das cinzas, não deve ser efectuada, percorrendo a estrada larga e rectilínea que nos oferece a paisagem deslumbrante, mas sim, a vereda íngreme e sinuosa que nos rompe a sola dos sapatos e nos faz gotejar algum suor.

Neste peregrinar, devemos, para nos purificar, recorrer à oração. O cristão, como filho do Pai celeste, deve manifestar-lhe gratidão pelos benefícios recebidos.

Orar é estar em amor para com Deus. A oração dá vida à nossa fé, fazendo-a florescer. O tempo de oração é uma audiência divina, um diálogo a dois, que deve levar o cristão a ter como verdade, cada vez mais sólida e profunda a frase de S. Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Quando rezarmos, não o façamos para “sermos vistos pelos homens”. Devemos fazê-lo em segredo, pois Ele, que vê o oculto, recompensar-te-á” (Mt 6,6). Nosso Senhor censura a hipocrisia e a falsa devoção; recompensa a oração colectiva (Mt 18, 19-20); (Act 2, 42).

O segundo degrau que conduz à perfeição é a prática da esmola. “Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu pai que vê o oculto premiar-te-á” (Mt 6,3).

Jesus condena a vã ostentação e a vaidade. O Evangelho não condena o progresso nem o uso dos bens deste mundo. Condena, sim, a sua apropriação injusta que leva alguns a nadar na abundância, enquanto que outros estão enterrados na miséria. As riquezas devem estar ao serviço dos homens e estes ao serviço de Deus.

Nesta Quaresma, saibamos, pois, abdicar, generosamente e na medida das nossas possibilidades, de alguns dos bens que Deus nos emprestou, colocando-os ao serviço dos mais pobres.

O terceiro degrau é jejum, entendido este, não só como a abstenção ou redução de alimentos, feita por espírito de mortificação e em obediência aos preceitos da Igreja, como também, como a renúncia ou privação, por exemplo dos alimentos que mais prazer nos proporcionam, do café da tarde ou do cigarro da noite.

O cristão dentro da sua subjectividade saberá encontrar o melhor meio de se penitenciar.

O importante é que pratique as obras enunciadas, jejum, esmola e oração com recta intenção, não movido pela vaidade ou por outros fins menos dignos, mas somente por amor do Pai que está nos Céus.

 

 

 

 

 

 

publicado por aosabordapena às 17:11

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